Anime e mangá

O que é anime? E qual sua relação com a Psique?

  • História (pós-guerra/ influência ocidental, globalização).
  • Cultura (Tribos Urbanas).
  • Mito (Manifestações do Inconsciente Coletivo).

       Sejam todos bem vindos! O principal objetivo desse Blog (espaço) é explorar pela perspectiva da Psicologia Junguiana o fenômeno Anime de maneira simples e divertida, esse primeiro texto será uma introdução ao tema, sugiro que para melhor compreensão dos conteúdos que serão explorados a leitura de nossa sessão sobre Psicologia Analítica, que está dividida em três partes. Hoje iremos entender o conceito e um pouco da  história dos animes, bem como estreitar a relação entre dois mundos aparentemente distintos.
          Espero que o texto desperte sua curiosidade e o herói oculto em você. Que a jornada comece!
         A história do anime tem início após um período de grande importância para nação Japonesa, os eventos ocorridos na Segunda Guerra Mundial impactaram a cultura nipônica a nível social, econômico, ético e moral.  O termo Anime é o nome dado às animações japonesas que adaptam o conteúdo presente nos mangás (histórias em quadrinhos) em animações para televisão, cinema ou plataformas de streaming.  A influência ocidental sobre o Japão, em principal dos Estados Unidos, com fortes ideais capitalistas tornou possível o crescimento do mercado de animes, uma vez que o mercado de quadrinhos americano também estava em alta (por exemplo: Capitão América, Namor  surgem no período da guerra) bem como as grandes produções cinematográficas americanas. Como reflexo dessa influência as primeiras produções de animes utilizaram enquadramento cinematográfico para animar seus desenhos de mangá. O grande Mangaká Osamu Tezuka (1928-1989), expressa nitidamente em palavras tal influência:
Por que os filmes americanos são tão diferentes dos japoneses? Como eu posso desenhar quadrinhos que façam as pessoas rir, chorar e se emocionar como aquele filme? ’’.
Capa Revista N 3º Capitão America 

       Vale ressaltar aqui a diferença entre Mangá e Anime: para o povo japonês toda e qualquer animação, sendo ela japonesa ou não, recebe o nome de Anime cuja origem da palavra advém de termos estrangeiros, que significa animação. O termo Mangá, entretanto,como cita Gravett em seu livro MANGA: SIXTY YEARS OF JAPONESE COMICS (2004 p.13) ,data do século XIX e foi usado pelo artista japonês Hokusai em 1814 para designar livros de “rascunhos excêntricos”. O ideograma 漫 Mantem um significado primário de “involuntário” e possui um significado secundário de “moralmente corrupto”. Já o ideograma  画 Gasignifica imagens. Os conteúdos abordados nessas páginas expressam todos os tipos de aspectos da cultura japonesa, desde temas infantis e fantasiosos, como também mais adultos, como sexo, violência, filosofia de vida. Ao contrário do que muitos podem pensar nem todo anime tem sua origem de um mangá, inclusive o crescimento do mercado de mangás foi impulsionado pelo crescimento do mercado de Animes, o que torna comum alguns equívocos em relação a esses conceitos.
漫 – Man
画 – Ga
Desenhos de Hokusai

        Aos poucos a indústria de animações japonesas foi crescendo, sendo hoje grande responsável pela difusão da cultura nipônica mundo a fora, a exemplo da Serie Dragon Ball que lançou seu terceiro filme nos cinemas mundiais, com recorde de bilheteria para um anime fora do Japão. É admirável observar como o povo japonês adaptou  a seu modo os efeitos do capitalismo e da cultura ocidental impostos a eles, como por exemplo, a tecnologia, mercado onde o Japão é potência mundial.
  Como por Winterstein:
’Ao lado de exportações de aparelhos eletrônicos, veículos automotores um dos principais expoentes da expansão japonesa no mercado mundial são histórias em quadrinhos e desenhos animados. ’’
   O universo dos animes e mangás exploram temáticas como: comedia, horror, ação, aventura, drama, entretanto o grande diferencial está no modo como são colocados esses temas.Os japoneses conseguem, quase que por mágica, fazer com que o leitor ou espectador mergulhe na trama, através de personagens carismáticos e enredos que muitas vezes evocam nossos sentimentos cotidianos, onde até um anime como uma temática aparentemente monótona e simples como, por exemplo, jogo de damas se torna envolvente e emocionante. (Nada contra os honrosos e geniais leitores jogadores de Damas).


    A imensidão e complexidade do assunto nos permite compreender, portanto que ao se tratar de Animes, estamos falando diretamente de uma expressão cultural japonesa. A fins de simplificar o entendimento, ao utilizar a palavra Anime estarei tratando de todo o conjunto cultural do Japão que  envolve  esse universo, ou seja, irei  me direcionar a uma Tribo Urbana específica. Logo, quando me referir a animes estarei me reportando ao fenômeno que engloba mangás, mangakás, animações,otakus e toda cultura que remeta a esse tema. (Ressalto que a diferença entre os termos já foi explicada acima, a opção por colocar tudo em um mesmo conjunto é puramente para facilitar a leitura, tornando a mesma menos fragmentada).
Mangá Dororo 

  Mas o que seria uma tribo urbana? Qual a relação com animes? Segundo Michel Maffesoli (primeiro sociólogo a cunhar o termo)  tribos urbanas são:
‘’ Pequenos grupos cujos elementos se unem por partilharem os mesmos princípios, ideais, gostos musicais ou estéticos que assumem a sua máxima expressão e visibilidade na adolescência.  Elementos estes que os distinguem do resto da sociedade e ao mesmo tempo os identificam. ’’
  Podemos perceber facilmente após ler esse conceito que aqueles chamados por Otakus(no entendimento ocidental) se classificam como uma tribo urbana. As generalidades de uma tribo, sejam elas urbanas ou não, envolvem um aspecto cultural, com costumes, vestimentas e rituais específicos que podemos identificar. Os Animes são parte essencial da expressão criativa e representam elementos presentes na vida da tribo. Á expressão através de contos de uma sociedade antiga ou primitiva atribuímos o nome de Mito. Existem fortes exemplos: a mitologia grega, nórdica, judaica, cristã, e por fim a japonesa, que os próprios Mangakás se inspiram para elaborar seus enredos.Logo o Anime pode ser entendido por duas perspectivas:
  Primeiro, ele é uma releitura, um recall dos mitos antigos; em segundo um novo conto, um novo mito contado de uma perspectiva mais atual. Em ambos os casos, existe forte relação com caráter mítico da humanidade. É exatamente nesse ponto que irei explorar a conexão entre Anime e Psicologia Junguiana.

Ozamu Tesuka – Autor de Astroboy e Dororo


  Jung possui um conceito ainda hoje considerado polêmico (leia a sessão – Breve introdução à psicologia analítica para compreender melhor): o Inconsciente Coletivo. Nele o autor propõe que nossa mente herda certas imagens, símbolos, paradigmas que existem desde os princípios da humanidade, e que são expressos pelo ser humano em todos os campos de sua vida, através dos pensamentos, comunicação, sensações, corpo,movimento,  arte, entre outros. Em específico estamos analisando a arte dos contos, poemas, escrita, pintura,informações que contém grande carga simbólica, que mais tarde será passada adiante. Os animes não fogem a esse meio, é uma arte expressa através de contos registrados em quadrinhos e posteriormente em animações. Esse é o único ponto que o difere de um poema ou conto, pois a narrativa herdada se mantém a mesma desde os primórdios do ser humano e pode ser facilmente identificada ao analisarmos mais a fundo.
  Os mitos são expressões das forças internas que atuam em nossa Psique (mente), em sua maioria são conteúdos inconscientes que se manifestam conscientemente através de histórias, paradigmas, símbolos que se repetem em diversos períodos e sociedades distintas.(Mais uma vez reforço a leitura da sessão – Breve introdução à psicologia analítica para evitar equívocos ao ler esse texto) . Não é difícil portanto  observar a semelhança existente, por exemplo, entre a narrativa simbólica de Naruto e o conto de Sigurd o grande herói Nórdico. O leitor pode pensar ao ler o artigo: Mas obviamente que os enredos de animes têm base em diversos contos antigos e lendas, possuem  influências culturais, logo é certo que a narrativa tende a ser semelhante.
  De certo modo nosso caro leitor tem razão, entretanto lhes peço para nos atentarmos há algo mais profundo, para além das inspirações pessoais dos autores, o decorrer da narrativa contém em suas entrelinhas conteúdos simbólicos, presentes desde os primórdios, a busca pelo autoconhecimento, a vida eterna, confronto com nossa sombra, paradigmas do amor, tais conteúdos estão presentes no homem para além de seu conhecimento pessoal, da sua consciência. O que busco explicar é um olhar hermético aos conteúdos presentes nos enredos dos animes, um trecho do livro: os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo de Jung pode vir a expressar melhor essa ideia :
 ‘’O inconsciente coletivo é uma parte da psique que pode distinguir-se de um inconsciente pessoal pelo fato de que não deve sua existência à experiência pessoal, não sendo, portanto, uma aquisição pessoal. Enquanto o inconsciente pessoal é constituído essencialmente de conteúdos que já foram conscientes e, no entanto desapareceram da consciência por terem sido esquecidos ou reprimidos, os conteúdos do inconsciente coletivo nunca estiveram na consciência e, portanto não foram adquiridos individualmente, mas devem sua existência apenas à hereditariedade. O inconsciente coletivo não se desenvolve individualmente, mas é herdado. Ele consiste de formas preexistentes, arquétipos, que só secundariamente podem tornar-se conscientes, conferindo uma forma definida aos conteúdos da consciência. ’’
Capa do Livro – Espaço Tempo na Cultura Japonesa

  Devo lembrar que no ideograma da palavra Mangá o sufixo Ga, significa imagem, que nesse contexto podem ser entendidos como símbolos, pois todo processo de criação começa por livre e espontânea expressão, muitas vezes sem um significado a priori,  que nos remete ao prefixo da palavra: Man, que significa involuntário. Creio que ao perguntarmos aos grandes cartunistas, mangakás e desenhistas como se deu o início do processo de criação de seus primeiros rascunhos a resposta seria algo como: comecei a rascunhar sem pretensões, deixei meus pensamentos fluírem, tive inspirações através de sonhos,devaneios.
   Um exemplo pode tornar mais claro o que venho a dizer: Júlio Verne, escritor famoso por obras literárias visionárias, admitiu que suas idéias muitas vezes foram inspiradas por sonhos. Em um deles viu uma máquina diferente de tudo que existia e era capaz de se locomover embaixo da água usando eletricidade, este sonho lhe serviu de inspiração para o livro Vinte Mil Léguas Submarinas. Os sonhos são porta de entrada para o mundo inconsciente, momento onde a consciência não está sobre vigília e os conteúdos presentes nas camadas mais profundas da psique surgem em forma de imagens,símbolos. Esse exemplo demonstra a forte influência dos conteúdos do inconsciente sobre nossas vidas, não é incomum encontrar situações como essa no meio artístico, onde as idéias surgem além do pensar consciente. Se perguntarmos aos Mangakás é provável que tenhamos situações semelhantes sobre fontes de inspiração.
  O inconsciente coletivo está em uma camada mais sutil e profunda em relação aos conteúdos da consciência e do inconsciente pessoal. Os arquétipos (símbolos) podem se manifestar através de uma meditação, um sonho, um insight no meio do vazio de nossos pensamentos, uma pintura, mito ou em rascunhos de desenhos aleatórios. Não questiono aqui as influências e o produto final, mas sim o que antecede, uma vez que também existe forte influência econômica e capitalista na divulgação de um anime ou mangá.
‘’O arquétipo representa essencialmente um conteúdo inconsciente, o qual se modifica através de sua conscientização e percepção, assumindo matizes que variam de acordo com a consciência individual na qual se manifesta. ’’ Jung (arquétipo e inconsciente coletivo)
  O conteúdo presente nos anime são um ‘’Remake’’ por assim dizer dos mitos antigos, portanto podem ser analisados na mesma ótica, é uma expressão artística dos conteúdos psicológicos internos de um povo, expressões do inconsciente coletivo.  A cultura deve ser compreendida como um Macro organismo que representa um inconsciente compartilhado de experiências adquiridas ao longo de milhões de anos de espécie, que pode ser analisada através do micro-organismo compreendido como Psique. Ao longo de uma série de artigos tentarei elaborar e expor conceitos, deixando claro que é possível analisar o fenômeno Anime pela visão da psicologia de Jung, juntando os amantes dos dois mundos, ou despertando interesse de ambas as partes. Vou demonstrar através de artigos científicos, livros, série de animes e histórias de mangá, tudo junto no mesmo barco, a ideia de que o Anime é mais do que desenho, é arte, é psicologia, é estudo, é vida!
* Todo conteúdo exposto neste Blog pode ser usado livremente para fins acadêmicos e ou pessoais, só peço por gentileza  que, ao expor , colocar aquela referência  esperta da sua fonte de informações, é como dar um Like antes de compartilhar, ajuda na divulgação e evitar plágios, grato a todos!

Referências Bibliográficas

Livros e Artigos
Catão, Bruno Alves, et al. “Tribo De Consumo De Animes: O Anime Como Um Totem.” Revista Gestão e Desenvolvimento, 2017, p. 126.
Gravett, Paul. Manga: Sixty Years of Japanese Comics. Collins Design, 2010.
Jung, Carl G., and Maria L. Pinho. O Homem e Seus símbolos. Nova Fronteira, 2008.
Jung, Carl Gustav, et al. Os arquétipos e o Inconsciente Coletivo. Vozes, 2001.
Kishimoto, Masashi, et al. Naruto. VIZ Media, 2007.
Winterstein, Claudia Pedro.’’Mangás e animes : sociabilidade entre cosplayers e otakus.’’. São Carlos : UFSCar, 2010.

Sites
leiacomagente.com.br

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